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quarta-feira, 10 de março de 2010

"Farça da Boa Preguiça" De Ariano Suassuna



Quem teve o prazer de assistir a peça, se encantou, saiu mais leve, e ainda teve direito a um bate-papo com os dois grupos que compõe o elenco, Ser Tão Teatro e Clowns de Shakespeare, o papo foi recheado de perguntas sobre os grupos, a história, e as respostas vinham cada vez melhores, questionados sobre sua relação , os Diretores Christina Streva e Fernando Yamamoto, foram precisos, a mescla da forma que cada um tem de fazer teatro, tornou a experiência ainda mais interessante. São mais de nove Editais ganhos, estes mesmos Editais são feitos também pelos próprios atores,não pude deixar de notar a união entre o grupo, eram olhares que denunciavam o cansaço de uma turnê que já vem de outros lugares, mas cheios de brilho. Reparei nas mãos que se encontravam de instante a instante. Tantas mulheres bonitas, homens também, pessoas que acreditam no Teatro, que se sacrificam. Posso dizer que isso me emociona, ver a platéia, principalmente os velhinhos e as crianças, estes parecem ser os mais absolvidos, me perdia entre as cenas da peça e os olhares da platéia , que não deixa de ser uma personagem, no meio daquele sonho que vivi. O ambiente, não poderia ter sido melhor, uma Praça cheia de história, pulsando a vida, a arte.Posso dizer que me senti flutuar..e o final, é sempre igual aos outros, ir pra casa, pegar um ônibus, ou ir andando, divagando entre pensamentos , mas é preciso estar atenta, posso ser assaltada,pensamento pesado esse, quebra o encanto....e para prezervar-me resolvi não pensar , só andar, andar...até que cheguei. Saudade daquele lugar de mágia, que só tem no mundo encantado do Inventado.

terça-feira, 2 de março de 2010

O Segredo do Mar



Um dia acordei e tive a doce sensação de liberdade, o céu era tão azul que minha janela parecia pequena, limitava minha visão, eu percebi que estava com sede de tudo, queria todos os ângulos, todas as cores, mas a janela me continha. Desci do apartamento , caminhei dois quarteirões e corri para a imensidão azul, eu já não sabia se era mar ou céu, só queria me unir a eles, no curto espaço de tempo o céu já não se unia ao mar, nuvens carregadas, acinzentadas, sons de trovão, um verdadeiro canto da natureza, eu mal começara entrar em delírio, quando a primeira onda me arrastou, fechei bem os olhos e lembrei da primeira vez que me levaram ao mar, era ainda pequeno, mas lembro de cada detalhe, cada aroma, tudo parecia ser bem maior do que realmente era. Eram tantos adultos, eu olhava tudo de baixo, puxava a saia da tia Beca e olhava com olhos pidões, ela logo me fazia um cafuné, me colocava em seu colo, quantos cheiros diferentes eu sentia, mas ficava calado, achava que se comentasse perderia aquilo, sempre tive isso comigo, um certo egoísmo advindo de um medo sempre tão infantil. Foi numa dessas travessuras de criança que eu desci das pernas de tia Beca e fui de encontro ao meu destino, determinado corri, sua fúria me atraia mais que os cheiros do colo de minha tia, ao entrar ouvi a voz de tio Carlinhos, mas já não havia tempo à perder, eu precisava entrar e descobrir o segredo do mar. Acordei com todos os adultos a minha volta, tia Beca chorando muito, dando graças a Deus porque eu estava bem, meus pais chegaram, me abraçaram forte, muito forte mesmo, eu nem entendia aquela situação, só conseguia pensar nele, no segredo que fui buscar e não achei, talvez tenha sido pelo pouco tempo que tive. Abro os olhos e me sinto leve, aqui não tem mais ondas, eu estou sendo levado ao segredo do mar, o sol que bate em minha face de meia- idade, tenta me persuadir a nadar, a voltar, mas eu que desde a infância esperei, não posso mais esperar, eu que passei metade da vida, ou talvez ela toda, a divagar em pensamentos, me alimentava apenas das recordações daquele dia, agora estou aqui, cada vez mais perto, não tenho mais forças para me acovardar, agora tenho a coragem dos que não tem escolha nenhuma. Fecho os olhos devagar, estão semicerrados, entrarei de vez no segredo do mar, e não tenho medo, estou pleno, não penso em nada. De repente sou despertado por um salva-vidas, mais uma vez me roubam a coragem , deitado no chão ,olho as pessoas a volta, olhares curiosos, um até chamou-me louco. Mas eles são apenas adultos, como aqueles de minha infância, nunca entenderão o que sinto diante do mar e meu desejo de absolvê-lo. Pensei que talvez aos noventa anos eu tenha o impulso novamente, e então poderei saber que segredo me aguarda, tão frio e silencioso como todo segredo guardado no mar deve ser.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Cozinha Vazia.

Andava inquieto, sentia uma velha coceira atrás da nuca, não sabia bem como terminaria tudo,sabia que precisava terminar. Ela provavelmente o estaria esperando na varanda, o aroma de café quente na mesa, pão fresquinho, o canto que já era dele, tudo naquele ambiente o esperava, como se não bastassem as expectativas de uma mulher que o amava, o lugar agora também tinha o poder de despertar o sentimento de expectativas sobre ele, sentia que tudo seria desespero e solidão sem sua presença, tinha piedade não apenas de Eugénia, mas da mesa, da cadeira, do café quente, da cozinha vazia, aquilo lhe sufocava o peito. A imagem de uma mulher na varanda o esperando não o comovia tanto, quanto pensar no pão que o esperava com anseios de ser devorado, o café que certamente adoraria esquentar-lhe o corpo.
Como um refrão que se repete, assim passavam seus dias, era monotonia, era escassez,falta de assunto, talvez; não teria outros braços para lhe acolher, ninguém o esperava em outra casa, nada lá fora lhe pertencia, mas Eugénia lhe dava vontade de sair, simplesmente por ser ela, a moça que casou-se virgem, que só amava a ele,e que certamente nem tinha pensamentos de abandono com relação a ele. Tranquila, criatura quase que inacreditável de se conceber, a culpa o estrangulava a cada minuto do dia, mas a vontade de ir o consumia ainda mais.
Em uma tarde muito longa, daquelas que olhar o relógio só nos faz ficar mais bucólicos, ele decidiu, teve certeza, mas o que é a certeza meus caros, talvez seja o cansaço de tanto procurar respostas, quando resolvemos simplesmente definirmos , seguirmos, sem hesitar, a principio, é claro. Toda certeza vem empurrada por inúmeros talvez. André saiu de casa como quem foge, foi sorrateiro, era agora um ladrão que só precisava ir para o mais longe possível , mas ao passar pela sala ele contemplou a cozinha, agora vazia, sem café, sem pão, sem nada. Doeu em seu peito covarde, mas agora tinha de sair.
Andou por tantas ruas,divagou em pensamentos cortados, a falta de sentido era a mesma, e agora como de ímpeto resolveu pegar o primeiro bonde, foi pra longe, dele, de Eugénia, da maldita cozinha que o prendera tantos e tantos anos, agora seria só ele. Ninguém mais o esperaria. Sentia algo novo que preferiu não definir, parecia que as luzes das casas que agora avistava, rápidas, trespassadas pela velocidade do bonde, faziam mais sentido que toda sua vida até aquele instante. Eram a elas, as luzes das casas que agora ele estava se agarrando, pelo menos por enquanto. Era tudo uma imensa vontade de viver.

domingo, 20 de dezembro de 2009

A Sede do Toque.


"Deixa se fosse sempre assim, quente, senta aqui perto de mim", ouvia como quem estava longe, não sabia mais se era um sonho ou realidade, eu dançava como se flutuasse, ainda sentia o perfume deixado em minha roupa, meu corpo estava morno, as lágrimas eram como rios para o mar, toda minha vida poderia se resumir aquele instante, Clarice disse que o instante é o momento em que o pneu bate no chão e depois não bate mais, era esse o tempo que possui, que quis tanto pra mim. Foi logo após a palestra sobre cinema que nós nos descobrimos, esqueci meu casaco sobre a cadeira, e logo me trouxe, pôs sua mão em meu rosto e afagou-me, não sei porque mas entrei em uma espécie de frenesi, aquele afago era doce, era um alento para a alma. Trocamos olhares, trocamos telefone, um mês se passou, já nem lembrava do afago doce, das mãos delicadas. Até o reencotro , nos vimos em uma ponte, entre o mar e aTerra, cantamos, nos sentimos novamente. nada tinha se perdido, os sentimentos estavam intactos. Fui para casa, coloquei uma música do Legião Urbana e foi tudo ficando longe, longe....... Talvez eu quissese que tudo ficasse longe, eu iria para mais um encontro com o afago,meu rosto tinha sede do seu toque, como minha boca tinha de água nos dias mais quentes. Estou acordada ou estarei sonhando, lembro que esse foi um dos últimos pensamentos, antes de minha mãe entrar no quarto perguntando por sua bolsa, ah a bolsa! eu ainda queria estar sonhado.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009



"Pés para que os quero, se tenho asas para voar."

Do Diário de Frida Khalo

sábado, 12 de dezembro de 2009

Alimento para a alma.


Todos os impossíveis são meus, desde o dia em que aqui cheguei, outros tem no chão os pés ou carregam algo nas mãos.

Meu chão é onde não cheguei, as minhas mãos é solidão, gritante que não toca os céus; os céus são meus, inspiração! Para onde não vão os meus pés, onde não chega minha mão!


Poesia sem título do poeta pernambucano Júlio Dias

terça-feira, 9 de junho de 2009

pOçAs De MiM???



Aquela imagem refletida não parecia ser eu, definitivamente não era eu, o que tinha mudado? Onde eu me perdera, aquele sorriso extravagante, a velha liberdade, sera que foi tudo uma ilusão? Talvez eu teha conseguido viver fora de mim mesma, por algum tempo que agora passou. Essa imagem que reflete na poça de água não é tão risonha, ri apenas sem graça, com a voz vaga, sinto falta até daquele hálito quente, o movimento vivaz, era felicidade? Nunca gostei muito de definir coisas, nem dá nome aos meus sentimentos, por isso que fico me questionando por horas, hoje estou mais consciente, estou pisando mais no chão, dói ainda, estava em breve estado de levitação e não imaginava que toda aquela magia podia escapar por mim, sem que eu percebesse, mas a vida faz isso costumeiramente, é como um aviso de sobrivivência,mantenha-se em alerta, acho que estou assim, nem triste, nem levitando, mas "caminhado e cantando"....olhando poças e não me vendo, mais continuo tentando encontrar, isso que me consola sempre.